sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Baudelaire e Gullar
Um, busca a mulher que passa, o outro, a que não. Ambos vislumbram o espaço urbano do mundo moderno como a inviabilidade, a impossibilidade do amor...
A uma passante
Charles Baudelaire
A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?
Longe daquí! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!
A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?
Longe daquí! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!
Pela rua
Ferreira Gullar
Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.
Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.
A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.
A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada.
Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.
Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.
A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.
A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada.
Tudo que é sólido desmancha no ar
O paradoxo da Modernidade está marcado pela unidade de desunidade, onde tudo parece ser impregnado de seu contrário e a imensa fragmentação provoca a perda de nitidez e profundidade. É o mundo acostumado com a profusão de coisas absurdas, que já não chocam mais, de tão corriqueiras, e da eventualidade (“eu não sei, a cada dia, o que vou amar no dia seguinte”). No plano da arte, a ausência de subjetividade vai descambar na diminuição do espectro imaginativo, na busca da arte pela arte, quando o meio passa a ser a mensagem, arte-objeto pura, auto-referida. “Todas as nossas invenções e progressos parecem dotar de vida intelectual às forças materiais, estupidificando a vida humana ao nível da força material” (Marx). O livro de Marshall Berman Tudo que é sólido desmancha no ar - A aventura da modernidade é um clássico indispensável para entender os dias de hoje.
Para baixar, clique aqui.
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sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Rosinha de Valença interpreta "Consolação"
Apaixonada pelo violão desde criança, Maria Rosa Canelas estudou sozinha e aos 12 já tocava em rádios e bailes de Valença, no Rio de Janeiro. Aos 22 anos se mandou para a cidade do Rio de Janeiro, onde conheceu Baden Powell e ganhou o nome musical “Rosinha de Valença”, porque diziam que ela tocava por uma cidade inteira. Depois do primeiro disco (Apresentando Rosinha de Valença), viajou em várias turnês durante seis anos pelos Estados Unidos, 24 países europeus, URSS, Israel e diversos países africanos, retornando ao Brasil em 1971. Pra ter uma idéia do que ela aprontou pelo mundo afora, o show “Folklore & Bossa Nova”, na Alemanha, onde, em apresentação fantástica, com desenvoltura e beleza, Rosinha interpreta “Consolação”, de Baden e Vinícius, acompanhada do flautista J. T. Meirelles, de Chico Batera na bateria, Rubens Bassini no tamborim, Sérgio Barroso no baixo e Dom Salvador no piano.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Cenas de vanguarda explícita
Paulo Leminski
Poucas coisas já me deram tanta emoção quanto a palavra “vanguarda”.
Como artista, durante anos, vi nela a epítome da arte, quase o sinônimo redondo de poesia.
O que não era de “vanguarda”, pra mim, a bem dizer, mal e mal existia.
“Vanguarda”, pra mim, poeta, claro, era tudo aquilo, práticas, teorias, derivado da explosão da poesia concreta paulista, em meados dos anos 50, e vanguardas subseqüentes.
Não imaginam que eu gostava era do lado racionalista daquela tendência. Que me perdoem os renê descartes e os le corbusier mas o que sempre gostei na coisa concreta foi a loucura que aquilo representa, a ampliação dos espaços da imaginação e das possibilidades de novo dizer, de novo sentir, de novo e mais expressar.
Se gostasse de razão, eu tinha feito curso de contabilidade.
O que eu gostava, gosto e gostarei era o caráter de “explosão” que aquela coisa toda tinha tido.
A institucionalização da “explosão” como vanguarda explícita e sistemática sempre me agradou menos. Detesto obrigações.
Com satisfação, ouço o nosso insuspeitíssimo Décio Pignatari declarar recentemente num congresso sobre “Sociedade, Cultura e Tecnologia”: “Não acredito numa inovação de ponta linear. As inovações de ponta são interessantes porque dão uma nova metalinguagem para as criações antigas. E as recuperam, exatamente, por serem de ponta em relação a elas”.
Essas reflexões me ocorrem a respeito de uma mostra especial de poesia que está havendo ai, agora, no Centro Cultural de São Paulo, a “Poesia Intersignos”, promovida pelo poeta Philadelpho Menezes, organizador e autor do catálogo, que recebo hoje.
Não discuto os poemas da mostra, que não vi. Discuto os conceitos do texto do catálogo, de um brilho e rigor teóricos raros entre nós, nestes deliciosos tempos de geléia geral.
Tudo aqui gira em torno da idéia de interação de artes, poesia mais forma visual, poesia sem palavras. O cardápio tradicional da cozinha vanguardista brasileira, enfim, para todos os que há anos militam nesse “front”.
Até ai, tudo bem.
Poesia não é literatura. Tudo bem. Poesia é mais pro lado da música e das artes plásticas. Isso, desde Pound, a gente já sabe.
E a melhor tradução do “Some Like It Hot” é “Quanto Mais Quente Melhor”, sem dúvida.
A prática é ótima.
Fazer poemas (ou “poemas”) fundindo verbal e visual é sempre uma boa. Como o é fundir verbal e sonoro-musical, verbal e gestual. O diabo.
O que não dá mais para agüentar são essas argumentações do tipo: “No marasmo asmático reinante, é necessário separar o passo adiante do passo ao lado”.
E eu pergunto: Quem vai fazer isso? O general Newton Cruz?
Desculpe, Menezes. Você é inteligente pacas. Mas sai dessa vida. Isso é infantilismo de vanguarda. Ninguém mais acredita nisso. Nem mesmo Décio. Nem Augusto de Campos. Nem Haroldo.
Isso é a projeção da idéia mecânica de “progresso” da época do valor sobre os multi-tempos pluri-irradiantes da era eletrônica, uma diretriz velha projetada sobre universos muito mais ambíguos, e muito mais radiativos: “Synchronicity”.
O computador, que é memória e projeto, dá o exemplo e o modelo.
Vivemos numa época total. Não tem mais essa de passado, presente e futuro. Artisticamente, vivemos a contemporaneidade absoluta.
Um hieróglifo egípcio pode estar muito mais cheio de sentido do que uma palavrinha qualquer borrifada em holograma, que pode não passar de uma mera exposição das possibilidades técnicas de uma nova “mídia”. Ficar basbaque com isso, pra mim, é coisa de caipira. Como poeta de vanguarda, eu, caipira “de luxe”, prefiro Homero. Lido em grego, é claro.
Com Julio Plaza, tenho vários poemas passados para vídeo-texto, recurso que eu acho legal, o texto em movimento (as “film-letras”, enfim, que o Augusto de Campos, poeta, profeta, já queria em 1955, para os poemas em cores do seu “poetamenos”).
Esses poemas “menos” foram apresentados na Bienal passada.
Como se vê, não sou nenhum brucutu poético defendendo o soneto, nem tenho o hábito de soltar marimbondos de fogo pela boca.
Mas não posso ficar quieto quando um discurso literalmente unilateral tenta invadir uma área, vital pra mim.
Hoje, sei. “Vanguarda” é coisa que pode estar em toda parte. Augusto a descobre em Lupicínio Rodrigues. Haroldo em Li-Tai-Po. Itamar Assumpção em Adoniram Barbosa.
O futuro, Menezes, é muito pobre.
Ele vive às custas do passado.
E acho mesmo que a própria idéia de “evolução” e “desenvolvimento”, aplicada à arte, representa uma apropriação indébita, extraída da área tecnológica, econômica e industrial, onde aí se pode, sim, falar em “desenvolvimento” e “evolução”.
Um Boeing voa mais alto, mais rápido e transporta mais passageiros que um teco-teco, com certeza. Adeus teco-teco!
No terreno da arte, porém, não há “evolução” desse tipo.
Um quadro de Matisse não é portador de mais informação do que uma tela de Rembrandt. O teatro de Brecht não é superior ao de Sófocles. Um filme de Godard não abole a existência do “Cidadão Kane”. Uma canção de Caetano ou uma ópera de Arrigo Barnabé não são, necessariamente, melhores que uma canção de Ismael Silva ou de Dolores Duran. Ou de Arnaut Daniel.
A arte não avança, indo “para a frente”, como as pernas quando caminham. Avança para todos os lados, como a pele num dia de muito frio ou muito calor.
A metáfora do “passo a frente” vem nos lembrar que a palavra “vanguarda” é uma expressão de origem militar, designando o corpo de elite que vai adiante, abrindo caminho para o grosso da tropa, que vem lá atrás. Com o conceito de “produssumo”, Décio Pignatari liquidou com esse equívoco, há vários anos.
Parente próximo do tal “salto qualitativo” invocado no catálogo para qualificar a “Poesia Intersignos” da mostra. Essa expressão também é uma apropriação indébita, trazida, agora, da área da Biologia, da teoria da evolução de Darwin, uma teoria aristocrática, de inconfundível sabor britânico.
Quando a mim, acho que a vida é plena em todos os seus momentos. E não vejo em que um tigre represente alguma coisa melhor que um caracol. Nem sei o que é que a cascavel tem que o vírus da Aids não tenha também.
Mas a palavra é tirânica, é o instrumento das leis. Onde a palavra chega, já chega botando ordem. E dando ordens, não há organização sem comando, sem hierarquia, sem autoridade. Bem mais democráticas são a vida, as coisas e as obras de arte.
Toda teorização de vanguarda corre, sempre, um perigo, que eu chamaria de “tendência penal”. Nessas teorizações, em geral, réu do crime mais-que-perfeito de ser pretérito, o passado é condenado à morte e seus bens passam todos para seus legítimos herdeiros, as obras que um tribunal, uma corte suprema (qual?), decreta os únicos com direito a uma existência plena e atual.
“Novidade” não é o novo, disse o Augusto. E o novo não é tudo, digo eu com meus buttons.
O que interessa mesmo são as obras, a produção, o “poiein”, o fazer. Outras todas as estradas, todas as direções: outros sentidos.
Eu, se fosse você, Menezes, eu ia nessa mostra, curtia os poemas, e esquecia essas palavras todas.
O único modo de fazer as palavras perderem sua tendência nazi-fascista, essa mania de marchar em passo-de-ganso, é fazê-las cantar. Ou voar. O que, no fundo, é a mesma coisa.
Fonte: LEMINSKI, Paulo. Uma carta uma brasa através. Cartas a Régis Bonvicino (1976-1981), São Paulo, Iluminuras, 1992, p. 17 e 18.
Poucas coisas já me deram tanta emoção quanto a palavra “vanguarda”.
Como artista, durante anos, vi nela a epítome da arte, quase o sinônimo redondo de poesia.
O que não era de “vanguarda”, pra mim, a bem dizer, mal e mal existia.
“Vanguarda”, pra mim, poeta, claro, era tudo aquilo, práticas, teorias, derivado da explosão da poesia concreta paulista, em meados dos anos 50, e vanguardas subseqüentes.
Não imaginam que eu gostava era do lado racionalista daquela tendência. Que me perdoem os renê descartes e os le corbusier mas o que sempre gostei na coisa concreta foi a loucura que aquilo representa, a ampliação dos espaços da imaginação e das possibilidades de novo dizer, de novo sentir, de novo e mais expressar.
Se gostasse de razão, eu tinha feito curso de contabilidade.
O que eu gostava, gosto e gostarei era o caráter de “explosão” que aquela coisa toda tinha tido.
A institucionalização da “explosão” como vanguarda explícita e sistemática sempre me agradou menos. Detesto obrigações.
Com satisfação, ouço o nosso insuspeitíssimo Décio Pignatari declarar recentemente num congresso sobre “Sociedade, Cultura e Tecnologia”: “Não acredito numa inovação de ponta linear. As inovações de ponta são interessantes porque dão uma nova metalinguagem para as criações antigas. E as recuperam, exatamente, por serem de ponta em relação a elas”.
Essas reflexões me ocorrem a respeito de uma mostra especial de poesia que está havendo ai, agora, no Centro Cultural de São Paulo, a “Poesia Intersignos”, promovida pelo poeta Philadelpho Menezes, organizador e autor do catálogo, que recebo hoje.
Não discuto os poemas da mostra, que não vi. Discuto os conceitos do texto do catálogo, de um brilho e rigor teóricos raros entre nós, nestes deliciosos tempos de geléia geral.
Tudo aqui gira em torno da idéia de interação de artes, poesia mais forma visual, poesia sem palavras. O cardápio tradicional da cozinha vanguardista brasileira, enfim, para todos os que há anos militam nesse “front”.
Até ai, tudo bem.
Poesia não é literatura. Tudo bem. Poesia é mais pro lado da música e das artes plásticas. Isso, desde Pound, a gente já sabe.
E a melhor tradução do “Some Like It Hot” é “Quanto Mais Quente Melhor”, sem dúvida.
A prática é ótima.
Fazer poemas (ou “poemas”) fundindo verbal e visual é sempre uma boa. Como o é fundir verbal e sonoro-musical, verbal e gestual. O diabo.
O que não dá mais para agüentar são essas argumentações do tipo: “No marasmo asmático reinante, é necessário separar o passo adiante do passo ao lado”.
E eu pergunto: Quem vai fazer isso? O general Newton Cruz?
Desculpe, Menezes. Você é inteligente pacas. Mas sai dessa vida. Isso é infantilismo de vanguarda. Ninguém mais acredita nisso. Nem mesmo Décio. Nem Augusto de Campos. Nem Haroldo.
Isso é a projeção da idéia mecânica de “progresso” da época do valor sobre os multi-tempos pluri-irradiantes da era eletrônica, uma diretriz velha projetada sobre universos muito mais ambíguos, e muito mais radiativos: “Synchronicity”.
O computador, que é memória e projeto, dá o exemplo e o modelo.
Vivemos numa época total. Não tem mais essa de passado, presente e futuro. Artisticamente, vivemos a contemporaneidade absoluta.
Um hieróglifo egípcio pode estar muito mais cheio de sentido do que uma palavrinha qualquer borrifada em holograma, que pode não passar de uma mera exposição das possibilidades técnicas de uma nova “mídia”. Ficar basbaque com isso, pra mim, é coisa de caipira. Como poeta de vanguarda, eu, caipira “de luxe”, prefiro Homero. Lido em grego, é claro.
Com Julio Plaza, tenho vários poemas passados para vídeo-texto, recurso que eu acho legal, o texto em movimento (as “film-letras”, enfim, que o Augusto de Campos, poeta, profeta, já queria em 1955, para os poemas em cores do seu “poetamenos”).
Esses poemas “menos” foram apresentados na Bienal passada.
Como se vê, não sou nenhum brucutu poético defendendo o soneto, nem tenho o hábito de soltar marimbondos de fogo pela boca.
Mas não posso ficar quieto quando um discurso literalmente unilateral tenta invadir uma área, vital pra mim.
Hoje, sei. “Vanguarda” é coisa que pode estar em toda parte. Augusto a descobre em Lupicínio Rodrigues. Haroldo em Li-Tai-Po. Itamar Assumpção em Adoniram Barbosa.
O futuro, Menezes, é muito pobre.
Ele vive às custas do passado.
E acho mesmo que a própria idéia de “evolução” e “desenvolvimento”, aplicada à arte, representa uma apropriação indébita, extraída da área tecnológica, econômica e industrial, onde aí se pode, sim, falar em “desenvolvimento” e “evolução”.
Um Boeing voa mais alto, mais rápido e transporta mais passageiros que um teco-teco, com certeza. Adeus teco-teco!
No terreno da arte, porém, não há “evolução” desse tipo.
Um quadro de Matisse não é portador de mais informação do que uma tela de Rembrandt. O teatro de Brecht não é superior ao de Sófocles. Um filme de Godard não abole a existência do “Cidadão Kane”. Uma canção de Caetano ou uma ópera de Arrigo Barnabé não são, necessariamente, melhores que uma canção de Ismael Silva ou de Dolores Duran. Ou de Arnaut Daniel.
A arte não avança, indo “para a frente”, como as pernas quando caminham. Avança para todos os lados, como a pele num dia de muito frio ou muito calor.
A metáfora do “passo a frente” vem nos lembrar que a palavra “vanguarda” é uma expressão de origem militar, designando o corpo de elite que vai adiante, abrindo caminho para o grosso da tropa, que vem lá atrás. Com o conceito de “produssumo”, Décio Pignatari liquidou com esse equívoco, há vários anos.
Parente próximo do tal “salto qualitativo” invocado no catálogo para qualificar a “Poesia Intersignos” da mostra. Essa expressão também é uma apropriação indébita, trazida, agora, da área da Biologia, da teoria da evolução de Darwin, uma teoria aristocrática, de inconfundível sabor britânico.
Quando a mim, acho que a vida é plena em todos os seus momentos. E não vejo em que um tigre represente alguma coisa melhor que um caracol. Nem sei o que é que a cascavel tem que o vírus da Aids não tenha também.
Mas a palavra é tirânica, é o instrumento das leis. Onde a palavra chega, já chega botando ordem. E dando ordens, não há organização sem comando, sem hierarquia, sem autoridade. Bem mais democráticas são a vida, as coisas e as obras de arte.
Toda teorização de vanguarda corre, sempre, um perigo, que eu chamaria de “tendência penal”. Nessas teorizações, em geral, réu do crime mais-que-perfeito de ser pretérito, o passado é condenado à morte e seus bens passam todos para seus legítimos herdeiros, as obras que um tribunal, uma corte suprema (qual?), decreta os únicos com direito a uma existência plena e atual.
“Novidade” não é o novo, disse o Augusto. E o novo não é tudo, digo eu com meus buttons.
O que interessa mesmo são as obras, a produção, o “poiein”, o fazer. Outras todas as estradas, todas as direções: outros sentidos.
Eu, se fosse você, Menezes, eu ia nessa mostra, curtia os poemas, e esquecia essas palavras todas.
O único modo de fazer as palavras perderem sua tendência nazi-fascista, essa mania de marchar em passo-de-ganso, é fazê-las cantar. Ou voar. O que, no fundo, é a mesma coisa.
Fonte: LEMINSKI, Paulo. Uma carta uma brasa através. Cartas a Régis Bonvicino (1976-1981), São Paulo, Iluminuras, 1992, p. 17 e 18.
Artigo inicialmente publicado na Folha de S. Paulo em 04 de dezembro de 1985.
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