Ferreira Gullar
Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.
Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.
A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.
A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
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3 comentários:
Essa imagem da moderndade é espetacular e dialoga com o Baudelaire. Isso tudo embrulhado no Berman é incrível.
Abraço,
Marcelo
Não existe nada como Ferreira Gullar. Sua capacidade de transformar esse nosso Mundo solitário e urbano, tão cinza, em uma poesia que serve tanto para fazer pensar o Mundo em que vivemos quanto agradar aquela garota que senta ao lado, me deixa embasbacado...
Como sugestão de poesia, do mesmo autor, eu recomendaria "Cantada" e "Cantiga para não morrer"
Abraços,
Caio
Grande, Caio!
Cantiga pra não morrer foi cantada pelo Fagner nos anos 80, sucesso total. Foi uma forma de aproximar o poeta do público: "quando vc for embora/moça branca de neve...".
E Cantada, bom, essa é clássico, não precisa citar.
O lance da poesia do Gullar é essa proximidade com o citadino, o urbano, o concreto. Nisso, nesse sentido, queria que vc lesse o conto do POE e comentasse. Acho que têm uma ligação.
Abratzos
C.
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