quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Algum dia você poderia?

Maiakóvski

Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquas num prato
as maçãs do rosto do oceano.

Nas escamas de um peixe de estanho,
li lábios novos chamando.

E você? Poderia
algum dia
por seu turno tocar um noturno
louco na flauta dos esgotos?
(tradução: Haroldo de Campos)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Filosofia da Caixa Preta

Vilém Flusser
As imagens que o fotógrafo consegue captar são as que poderão ser entendidas pelo seu meio cultural, pois, “a espessura do campo fotográfico é constituída de objetos culturais, isto é, objetos que foram colocados ali ‘propositalmente’”. Assim, é impossível separar a evolução cultural da evolução da imagem, já que o crivo cultural está presente, ajudando a determinar o ângulo preciso, a informação precisa, buscada pelo fotógrafo ao se aproximar do fenômeno que quer registrar. No seu texto mais conhecido, Filosofia da Caixa Preta, Vilém Flusser, filósofo tcheco radicado no Brasil nos anos 40, analisa a fotografia do ponto de vista da história e da sociologia, considerando-a uma descoberta equivalente à da escrita, como forma de perpetuar uma mensagem (uma em signos, a outra, em imagens). Indispensável para quem estuda história, filosofia, imagens e artes em geral, o texto Filosofia da Caixa Preta que divulgamos nesse link aqui, é uma colaboração da estudante de artes visuais Marília Lourenço.

O homem na multidão


George Grosz: "Para Oskar Panizza"
Edgar Allan Poe
De certo livro germânico, disse-se, com propriedade, que "es lässt sich nicht lesen" - não se deixa ler. Há certos segredos que não consentem ser ditos. Homens morrem à noite em seus leitos, agarrados às mãos de confessores fantasmais, olhando-os devotamente nos olhos; morrem com o desespero no coração e um aperto na garganta, ante a horripilância de mistérios que não consentem ser revelados. De quando em quando, ai, a consciência do homem assume uma carga tão densa de horror que dela só se redime na sepultura. E, destarte, a essência de todo crime permanece irrevelada.

Há não muito tempo, ao fim de uma tarde de outono, eu estava sentado ante a grande janela do Café D..., em Londres. Por vários meses andara enfermo, mas já me encontrava em franca convalescença e, com a volta da saúde, sentia-me num daqueles felizes estados de espírito que são exatamente o oposto do ennui; estado de espírito da mais aguda apetência, no qual os olhos da mente se desanuviam e o intelecto, eletrificado, ultrapassa sua condição diária tanto quanto a vívida, posto que cândida, razão de Leibniz ultrapassa a doida e débil retórica de Górgias. O simples respirar era-me um prazer, e eu derivava inclusive inegável bem-estar de muitas das mais legítimas fontes de aflição. Sentia um calmo mas inquisitivo interesse por tudo. Com um charuto entre os lábios e um jornal ao colo, divertira-me durante a maior parte da tarde: ora espiando os anúncios, ora observando a promíscua companhia reunida no salão, ora espreitando a rua através das vidraças esfumaçadas.

Essa era uma das artérias principais da cidade e regurgitara de gente durante o dia todo. Mas, ao aproximar-se o anoitecer, a multidão engrossou, e, quando as lâmpadas se acenderam, duas densas e contínuas ondas de passantes desfilavam pela porta. Naquele momento particular do entardecer, eu nunca me encontrara em situação similar, e, por isso, o mar tumultuoso de cabeças humanas enchia-me de uma emoção deliciosamente inédita. Desisti finalmente de prestar atenção ao que se passava dentro do hotel e absorvi-me na contemplação da cena exterior.

De início, minha observação assumiu um aspecto abstrato e generalizante. Olhava os transeuntes em massa e os encarava sob o aspecto de suas relações gregárias. Logo, no entanto, desci aos pormenores e comecei a observar, com minucioso interesse, as inúmeras variedades de figura, traje, ar, porte, semblante e expressão fisionômica.

Muitos dos passantes tinham um aspecto prazerosamente comercial e pareciam pensar apenas em abrir caminho através da turba. Traziam as sobrancelhas vincadas, e seus olhos moviam-se rapidamente; quando davam algum encontrão em outro passante, não mostravam sinais de impaciência; recompunham-se e continuavam, apressados, seu caminho. Outros, formando numerosa classe, eram irrequietos nos movimentos; tinham o rosto enrubescido e resmungavam e gesticulavam consigo mesmos, como se sentissem solitários em razão da própria densidade da multidão que os rodeava. Quando obstados em seu avanço, interrompiam subitamente o resmungo, mas redobravam a gesticulação e esperavam, com um sorriso vago e contrafeito, que as pessoas que os haviam detido passassem adiante. Se alguém os acotovelava, curvavam-se cheios de desculpas, como que aflitos pela confusão.

Nada mais havia de distintivo sobre essas duas classes além do que já observei. Seus trajes pertenciam àquela espécie adequadamente rotulada de decente. Eram, sem dúvida, nobres, comerciantes, procuradores, negociantes, agiotas _ os eupátridas e os lugares-comuns da sociedade _, homens ociosos e homens atarefados com assuntos particulares, que dirigiam negócios de sua própria responsabilidade. Não excitaram muito minha atenção.

A tribo dos funcionários era das mais ostensivas, e nela discerni duas notáveis subdivisões. Havia, em primeiro lugar, os pequenos funcionários de firmas transitórias, jovens cavalheiros de roupas justas, botas de cor clara, cabelo bem emplastado e lábios arrogantes. Posta de lado certa elegância de porte, a que, à falta de melhor termo, pode-se dar o nome de "escrivanismo", a aparência deles parecia-me exato fac-símile do que, há doze ou dezoito meses, fora considerada a perfeição do bom tom. Usavam os atavios desprezados pelas classes altas - e isso, acredito, define-os perfeitamente.

A subdivisão dos funcionários categorizados de firmas respeitáveis era inconfundível. Fazia-se logo reconhecer pelas casacas e calças pretas ou castanhas, confortáveis e práticas, pelas gravatas brancas, pelos coletes, pelos sapatos sólidos, pelas meias grossas e pelas polainas. Tinham todos a cabeça ligeiramente calva e a orelha direita afastada, devido ao hábito de ali prenderem a caneta. Observei que usavam sempre ambas as mãos para pôr ou tirar o chapéu e que traziam relógios com curtas correntes de ouro maciço, de modelo antigo. A deles era a afetação da respeitabilidade, se é que existe, verdadeiramente, afetação tão respeitável.

Havia muitos indivíduos de aparência ousada, característica da raça dos batedores de carteiras, que infesta todas as grandes cidades. Eu os olhava com muita curiosidade e achava difícil imaginar que pudessem ser tomados por cavalheiros pelos cavalheiros propriamente ditos. O comprimento do punho de suas camisas, assim como o ar de excessiva franqueza que exibiam, era quanto bastava para denunciá-los de imediato.

Os jogadores - e não foram poucos os que pude discernir - eram ainda mais facilmente identificáveis. Usavam trajes dos mais variados, desde o colete de veludo, o lenço fantasia ao pescoço, a corrente de ouro e os botões enfeitados do mais desatinado e trapaceiro dos rufiões às vestes escrupulosamente desadornadas dos clérigos, incapazes de provocar a mais leve das suspeitas. Não obstante, denunciava-os certa tez escura e viscosa, a opacidade dos olhos, assim como o palor e a compressão dos lábios. Havia, ademais, dois outros traços característicos que me possibilitavam identificá-los: a voz estudadamente humilde e a incomum extensão do polegar, que fazia ângulo reto com os demais dedos. Muitas vezes, em companhia desses velhacos, observei outra espécie de homens, algo diferentes nos hábitos mas, não obstante, pássaros de plumagem semelhante. Podiam ser definidos como cavalheiros que viviam à custa da própria finura. Ao que parecia, dividiam-se em dois batalhões, no tocante a rapinar o público: de um lado, os almofadinhas; de outro, os militares. Os traços distintivos do primeiro grupo eram o cabelo anelado e o sorriso aliciante; o segundo grupo caracterizava-se pelo semblante carrancudo e pela casaca de alamares.

Descendo na escala do que se chama distinção, encontrei temas para especulações mais profundas e mais sombrias. Encontrei judeus mascates, com olhos de falcão cintilando num semblante onde tudo o mais era abjeta humildade; atrevidos mendigos profissionais hostilizando mendicantes de melhor aparência, a quem somente o desespero levara a recorrer à caridade noturna; débeis e cadavéricos inválidos, sobre os quais a morte já estendera sua garra, e que se esgueiravam pela multidão, olhando, implorantes, as faces dos que passavam, como se em busca de alguma consolação ocasional, de alguma esperança perdida; mocinhas modestas voltando para seus lares taciturnos após um longo e exaustivo dia de trabalho e furtando-se, mais chorosas que indignadas, aos olhares cúpidos dos rufiões, cujo contato direto, não obstante, não podiam evitar; mundanas de toda sorte e de toda idade: a inequívoca beleza no auge da feminilidade, lembrando a estátua de Luciano, feita de mármore de Paros, mas cheia de imundícies em seu interior; a repugnante e desarvorada leprosa vestida de trapos; a velhota cheia de rugas e de jóias, exageradamente pintada, num derradeiro esforço por parecer jovem; a menina de formas ainda imaturas, mas que, através de longa associação, já se fizera adepta das terríveis coqueterias próprias do seu ofício e ardia de inveja por igualar·se, no vício, às suas colegas mais idosas; bêbados inúmeros e indescritíveis; uns, esfarrapados, cambaleando inarticulados, de rosto contundido e olhos vidrados; outros, de trajes ensebados, algo fanfarrões, de lábios grossos e sensuais, e face apopleticamente rubicunda; outros, ainda, trajando roupas que, em tempos passados, haviam sido elegantes e que, mesmo agora, mantinham escrupulosamente escovadas; homens que caminhavam com passo firme, mas cujo semblante se mostrava medonhamente pálido, cujos olhos estavam congestionados e cujos dedos trêmulos se agarravam, enquanto abriam caminho por entre a multidão, a qualquer objeto que lhes estivesse ao alcance; além desses todos, carregadores de anúncios, moços de frete, varredores, tocadores de realejo, domadores de macacos ensinados, cantores de rua, ambulantes, artesãos esfarrapados e trabalhadores exaustos, das mais variadas espécies _ tudo isso cheio de bulha e desordenada vivacidade, ferindo-nos discordantemente os ouvidos e provocando-nos uma sensação dolorida nos olhos.

Conforme a noite avançava, progredia meu interesse pela cena. Não apenas o caráter geral da multidão se alterava materialmente (seus aspectos mais gentis desapareciam com a retirada da porção mais ordeira da turba, e seus aspectos mais grosseiros emergiam com maior relevo, porquanto a hora tardia arrancava de seus antros todas as espécies de infâmias, mas a luz dos lampiões a gás, débil de início, na sua luta contra o dia agonizante, tinha por fim conquistado ascendência, pondo nas coisas um brilho trêmulo e vistoso . Tudo era negro mas esplêndido - como aquele ébano ao qual tem sido comparado o estilo de Tertuliano.

Os fantásticos efeitos de luz levaram-me ao exame das faces individuais, e, embora a rapidez com que o mundo iluminado desfilava diante da janela me proibisse lançar mais que uma olhadela furtiva a cada rosto, parecia-me, não obstante, que, no meu peculiar estado de espírito, eu podia ler freqüentemente, mesmo no breve intervalo de um olhar, a história de longos anos.

Com a testa encostada ao vidro, estava eu destarte ocupado em examinar a turba quando, subitamente, deparei com um semblante (o de um velho decrépito, de uns sessenta e cinco anos de idade), um semblante que de imediato se impôs fortemente à minha atenção, dada a absoluta idiossincrasia de sua expressão. Nunca vira coisa alguma que se lhe assemelhasse, nem de longe. Lembro-me bem de que meu primeiro pensamento, ao vê-lo, foi o de que, tivesse-o conhecido Retzsch, e não haveria de querer outro modelo para as suas encarnações pictóricas do Demônio.

Enquanto eu tentava, durante breve minuto em que durou esse primeiro exame, analisar o significado que ele sugeria, nasceram, de modo confuso e paradoxal, no meu espírito, as idéias de vasto poder mental, de cautela, de indigência, de avareza, de frieza, de malícia, de ardor sanguinário, de triunfo, de jovialidade, de excessivo terror, de intenso e supremo desespero. Senti-me singularmente exaltado, surpreso, fascinado. "Que extraordinária história", disse a mim mesmo, "não estará escrita naquele peito!" Veio-me então imperioso desejo de manter o homem sob minhas vistas... de saber mais sobre ele. Vesti apressadamente o sobretudo e, agarrando o chapéu e a bengala, saí para a rua e abri caminho por entre a turba em direção ao local em que o havia visto desaparecer, pois, a essa altura, ele já sumira de vista. Ao cabo de algumas pequenas dificuldades, consegui por fim divisá-lo, aproximar-me dele e segui-lo de perto, embora com cautela, de modo a não lhe atrair a atenção.

Tinha agora uma boa oportunidade para examinar-lhe a figura. Era de pequena estatura, muito esguio de corpo e, aparentemente, muito débil. Suas roupas eram, de modo geral, sujas e esfarrapadas, mas quando ele passava, ocasionalmente, sob algum foco de luz, eu podia perceber que o linho que trajava, malgrado a sujeira, era de fina textura, e, a menos que minha visão houvesse me enganado, tive um relance através de uma fresta da roquelaure, evidentemente de segunda mão, que ele trazia abotoada de cima a baixo, de um diamante e de uma adaga. Essas observações aguçaram minha curiosidade, e decidi-me a acompanhar o estranho até onde quer que ele fosse.

Era já noite fechada, e uma neblina úmida e espessa, que logo se agravou em chuva pesada, amortalhava a cidade. Essa mudança de clima teve um estranho efeito sobre a multidão, que logo foi presa de nova agitação e se abrigou sob um mundo de guarda-chuvas. A agitação, os encontrões e o zunzum decuplicaram. De minha parte, não dei muita atenção à chuva; uma velha febre latente em meu organismo fazia com que eu a recebesse com um prazer algo temerário. Amarrando um lenço à boca, continuei a andar. Durante meia hora o velho prosseguiu seu caminho, com dificuldade, ao longo da grande avenida; eu caminhava grudado aos seus calcanhares, com medo de perdê-lo de vista. Como nunca voltou a cabeça para trás, não se deu conta de minha perseguição. A certa altura, meteu-se por uma travessa que, embora repleta de gente, não estava tão congestionada quanto a avenida que abandonara. Evidenciou-se, então, uma mudança no seu procedimento. Caminhava agora mais lentamente e menos intencionalmente do que antes; com maior hesitação, dir-se-ia. Atravessou e tornou a atravessar a rua, repetidas vezes, sem propósito aparente, e a multidão era ainda tão espessa que, a cada movimento seu, eu era obrigado a segui-lo bem de perto. A rua era longa e apertada, e ele caminhou por ela cerca de uma hora; durante esse tempo, o número de transeuntes havia gradualmente decrescido, tornando-se o que é ordinariamente visto, à noite, na Broadway, nas proximidades do Park, tão grande é a diferença entre a população de Londres e a da mais populosa das cidades americanas. Um desvio de rota levou-nos a uma praça brilhantemente iluminada e transbordante de vida. As antigas maneiras do estranho voltaram a aparecer. O queixo caiu-lhe sobre o peito, enquanto seus olhos se moviam, inquietos, sob o cenho franzido, em todas as direções, espreitando os que o acossavam. Abriu caminho por entre a multidão com firmeza e perseverança. Surpreendi-me ao ver que, tendo completado o circuito da praça, ele voltava e retomava o itinerário que mal acabara de completar. Mais atônito ainda fiquei ao vê-lo repetir o mesmo circuito diversas vezes; quase que deu comigo, certa vez em que se voltou com um movimento brusco.

Nesse exercício gastou mais uma hora, ao fim da qual encontramos menos interrupções, por parte dos transeuntes, que da primeira vez. A chuva continuava a cair, intensa; o ar tornou-se frio; os passantes se retiravam para suas casas. Com um gesto de impaciência, o estranho ingressou num beco relativamente deserto. Caminhou apressadamente, durante cerca de um quarto de milha, com uma disposição que eu jamais sonhara ver em pessoa tão idosa; grande foi a minha dificuldade em acompanhá-lo. Alguns minutos de caminhada levaram-nos a uma grande e ruidosa feira, cujas localidades pareciam bastante familiares ao estranho, e ali ele retomou suas maneiras primitivas, enquanto abria caminho de cá para lá, sem propósito definido, por entre a horda de compradores e vendedores.

Durante a hora e meia, aproximadamente, que passamos nesse local, foi-me mister muita cautela para seguir-lhe a pista sem atrair sua atenção. Felizmente, eu calçava galochas e podia movimentar-me em absoluto silêncio. Em nenhum momento ele percebeu que eu o vigiava. Entrou em loja após loja; não perguntava o preço de artigo algum nem dizia qualquer palavra, mas limitava-se a olhar todos os objetos com um olhar desolado, despido de qualquer expressão. Eu estava profundamente intrigado com o seu modo de agir e firmemente decidido a não me separar dele antes de estar satisfeita, até certo ponto, minha curiosidade a seu respeito.

Um relógio bateu onze sonoras badaladas, e a feira começou a despovoar-se rapidamente. Um lojista, ao fechar um postigo, deu um esbarrão no velho, e, no mesmo instante, vi um estremecimento percorrer-lhe o corpo. Ele saiu apressadamente para a rua e olhou ansioso à sua volta, por um momento; encaminhou-se depois, com incrível rapidez, através de vielas, umas cheias de gente, outras despovoadas, para a grande avenida da qual partira, a avenida onde ficava situado o Hotel D... Esta, no entanto, já não apresentava o mesmo aspecto. Estava ainda brilhantemente iluminada, mas a chuva caía pesadamente e havia poucas pessoas à vista. O estranho empalideceu. Deu alguns passos caprichosos pela antes populosa avenida e depois, suspirando profundamente, tomou a direção do rio. Após ter atravessado uma grande variedade de ruas tortuosas, chegou por fim diante de um dos teatros principais da cidade. Este estava prestes a fechar, e os espectadores saíam pelas portas escancaradas. Vi o velho arfar, como se por falta de ar, e mergulhar na multidão, mas julguei perceber que a intensa agonia do seu semblante tinha, de certo modo, amainado. A cabeça caiu-lhe sobre o peito novamente, como quando eu o vira pela primeira vez. Observei que seguia agora o caminho tomado pela maioria dos espectadores, mas, de modo geral, não conseguia compreender a inconstância de suas ações.

Enquanto caminhava, o número de transeuntes ia rareando, e sua antiga inquietude e vacilação voltaram a aparecer. Durante algum tempo, acompanhou de perto um grupo de dez ou doze valentões; mas o grupo foi diminuindo aos poucos, até que ficaram apenas três dos componentes, numa ruazinha estreita, melancólica, pouco freqüentada. O estranho se deteve e, por um momento, pareceu imerso em reflexões; depois, com evidentes sinais de agitação, seguiu em rápidas passadas um itinerário que nos levou aos limites da cidade, para regiões muito diversas daquelas que havíamos até então atravessado. Era o mais esquálido bairro de Londres; nele tudo exibia a marca da mais deplorável das pobrezas e do mais desesperado dos crimes. A débil luz das lâmpadas ocasionais, altos e antigos prédios, construídos de madeiras já roídas de vermes, apareciam cambaleantes e arruinados, dispostos em tantas e tão caprichosas direções, que mal se percebia um arremedo de passagem por entre eles. As pedras do pavimento jaziam espalhadas, arrancadas de seu leito original, onde agora viçava a grama, exuberante. Um odor horrível se desprendia dos esgotos arruinados. A desolação pervagava a atmosfera. No entanto, conforme avançávamos, ouvimos sons de vida humana e, por fim, deparamos com grandes bandos de classes mais desprezadas da população londrina vadiando de cá para lá. O ânimo do velho se acendeu de novo, como uma lâmpada bruxuleante. Uma vez mais, caminhou com passo elástico. Subitamente; ao dobrarmos uma esquina, um clarão de luz feriu-nos os olhos e detivemo-nos diante de um dos enormes templos urbanos de Intemperança: um dos palácios do demônio Alcool.

O amanhecer estava próximo, mas, não obstante, uma turba de bêbados desgraçados atravancava a porta de entrada da taverna. Com um pequeno grito de alegria, o velho forçou a passagem e, uma vez dentro do salão, retomou suas maneiras habituais, vagueando, sem objetivo aparente, por entre a turba. Não fazia, porém, muito tempo que se ocupava nesse exercício quando uma agitação dos presentes em direção à porta deu a entender que o proprietário da taverna resolvera fechá-la por aquela noite. Era algo mais intenso que desespero o sentimento que pude ler no semblante daquela criatura singular a quem eu estivera a vigiar tão pertinazmente. Todavia, ele não hesitou por muito tempo; com doida energia, retomou o caminho de volta para o coração da metrópole. Caminhava com passadas longas e rápidas, enquanto eu o seguia, cheio de espanto, mas decidido a não abandonar um escrutínio pelo qual sentia, agora, o mais intenso dos interesses. Enquanto caminhávamos, o sol nasceu, e quando alcançamos novamente a mais populosa feira da cidade, a rua do Hotel D ... , esta apresentava uma aparência de alvoroço e atividade muito pouco inferior àqueles que eu presenciara na véspera. E ali, entre a confusão que crescia a cada momento, persisti na perseguição ao estranho. Mas este, como de costume, limitava-se a caminhar de cá para lá; durante o dia todo, não abandonou o turbilhão da avenida. Quando se aproximaram as trevas da segunda noite, aborreci-me mortalmente e, detendo-me bem em frente do velho, olhei-lhe fixamente o rosto. Ele não deu conta de mim, mas continuou a andar, enquanto eu, desistindo da perseguição, fiquei absorvido vendo-o afastar-se.

"Este velho", disse comigo, por fim, "é o tipo George Grosze o gênio do crime profundo. Recusa-se a estar só. É o homem da multidão. Será escusado segui-lo: nada mais saberei a seu respeito ou a respeito dos seus atos. O mais cruel coração do mundo é livro mais grosso que o Hortulus animae, e talvez seja uma das mercês de Deus que "es lässt sich nich lesen".

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Baudelaire e Gullar

Um, busca a mulher que passa, o outro, a que não. Ambos vislumbram o espaço urbano do mundo moderno como a inviabilidade, a impossibilidade do amor...

A uma passante

Charles Baudelaire
A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?

Longe daquí! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

Pela rua

Ferreira Gullar
Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.

Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.

A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.

A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada.

Tudo que é sólido desmancha no ar

O paradoxo da Modernidade está marcado pela unidade de desunidade, onde tudo parece ser impregnado de seu contrário e a imensa fragmentação provoca a perda de nitidez e profundidade. É o mundo acostumado com a profusão de coisas absurdas, que já não chocam mais, de tão corriqueiras, e da eventualidade (“eu não sei, a cada dia, o que vou amar no dia seguinte”). No plano da arte, a ausência de subjetividade vai descambar na diminuição do espectro imaginativo, na busca da arte pela arte, quando o meio passa a ser a mensagem, arte-objeto pura, auto-referida. “Todas as nossas invenções e progressos parecem dotar de vida intelectual às forças materiais, estupidificando a vida humana ao nível da força material” (Marx). O livro de Marshall Berman Tudo que é sólido desmancha no ar - A aventura da modernidade é um clássico indispensável para entender os dias de hoje.
Para baixar, clique aqui.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Rosinha de Valença interpreta "Consolação"

Apaixonada pelo violão desde criança, Maria Rosa Canelas estudou sozinha e aos 12 já tocava em rádios e bailes de Valença, no Rio de Janeiro. Aos 22 anos se mandou para a cidade do Rio de Janeiro, onde conheceu Baden Powell e ganhou o nome musical “Rosinha de Valença”, porque diziam que ela tocava por uma cidade inteira. Depois do primeiro disco (Apresentando Rosinha de Valença), viajou em várias turnês durante seis anos pelos Estados Unidos, 24 países europeus, URSS, Israel e diversos países africanos, retornando ao Brasil em 1971. Pra ter uma idéia do que ela aprontou pelo mundo afora, o show “Folklore & Bossa Nova”, na Alemanha, onde, em apresentação fantástica, com desenvoltura e beleza, Rosinha interpreta “Consolação”, de Baden e Vinícius, acompanhada do flautista J. T. Meirelles, de Chico Batera na bateria, Rubens Bassini no tamborim, Sérgio Barroso no baixo e Dom Salvador no piano.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Cenas de vanguarda explícita

Paulo Leminski
Poucas coisas já me deram tanta emoção quanto a palavra “vanguarda”.
Como artista, durante anos, vi nela a epítome da arte, quase o sinônimo redondo de poesia.
O que não era de “vanguarda”, pra mim, a bem dizer, mal e mal existia.
“Vanguarda”, pra mim, poeta, claro, era tudo aquilo, práticas, teorias, derivado da explosão da poesia concreta paulista, em meados dos anos 50, e vanguardas subseqüentes.
Não imaginam que eu gostava era do lado racionalista daquela tendência. Que me perdoem os renê descartes e os le corbusier mas o que sempre gostei na coisa concreta foi a loucura que aquilo representa, a ampliação dos espaços da imaginação e das possibilidades de novo dizer, de novo sentir, de novo e mais expressar.
Se gostasse de razão, eu tinha feito curso de contabilidade.
O que eu gostava, gosto e gostarei era o caráter de “explosão” que aquela coisa toda tinha tido.
A institucionalização da “explosão” como vanguarda explícita e sistemática sempre me agradou menos. Detesto obrigações.
Com satisfação, ouço o nosso insuspeitíssimo Décio Pignatari declarar recentemente num congresso sobre “Sociedade, Cultura e Tecnologia”: “Não acredito numa inovação de ponta linear. As inovações de ponta são interessantes porque dão uma nova metalinguagem para as criações antigas. E as recuperam, exatamente, por serem de ponta em relação a elas”.
Essas reflexões me ocorrem a respeito de uma mostra especial de poesia que está havendo ai, agora, no Centro Cultural de São Paulo, a “Poesia Intersignos”, promovida pelo poeta Philadelpho Menezes, organizador e autor do catálogo, que recebo hoje.
Não discuto os poemas da mostra, que não vi. Discuto os conceitos do texto do catálogo, de um brilho e rigor teóricos raros entre nós, nestes deliciosos tempos de geléia geral.
Tudo aqui gira em torno da idéia de interação de artes, poesia mais forma visual, poesia sem palavras. O cardápio tradicional da cozinha vanguardista brasileira, enfim, para todos os que há anos militam nesse “front”.
Até ai, tudo bem.
Poesia não é literatura. Tudo bem. Poesia é mais pro lado da música e das artes plásticas. Isso, desde Pound, a gente já sabe.
E a melhor tradução do “Some Like It Hot” é “Quanto Mais Quente Melhor”, sem dúvida.
A prática é ótima.
Fazer poemas (ou “poemas”) fundindo verbal e visual é sempre uma boa. Como o é fundir verbal e sonoro-musical, verbal e gestual. O diabo.
O que não dá mais para agüentar são essas argumentações do tipo: “No marasmo asmático reinante, é necessário separar o passo adiante do passo ao lado”.
E eu pergunto: Quem vai fazer isso? O general Newton Cruz?
Desculpe, Menezes. Você é inteligente pacas. Mas sai dessa vida. Isso é infantilismo de vanguarda. Ninguém mais acredita nisso. Nem mesmo Décio. Nem Augusto de Campos. Nem Haroldo.
Isso é a projeção da idéia mecânica de “progresso” da época do valor sobre os multi-tempos pluri-irradiantes da era eletrônica, uma diretriz velha projetada sobre universos muito mais ambíguos, e muito mais radiativos: “Synchronicity”.
O computador, que é memória e projeto, dá o exemplo e o modelo.
Vivemos numa época total. Não tem mais essa de passado, presente e futuro. Artisticamente, vivemos a contemporaneidade absoluta.
Um hieróglifo egípcio pode estar muito mais cheio de sentido do que uma palavrinha qualquer borrifada em holograma, que pode não passar de uma mera exposição das possibilidades técnicas de uma nova “mídia”. Ficar basbaque com isso, pra mim, é coisa de caipira. Como poeta de vanguarda, eu, caipira “de luxe”, prefiro Homero. Lido em grego, é claro.
Com Julio Plaza, tenho vários poemas passados para vídeo-texto, recurso que eu acho legal, o texto em movimento (as “film-letras”, enfim, que o Augusto de Campos, poeta, profeta, já queria em 1955, para os poemas em cores do seu “
poetamenos”).
Esses poemas “menos” foram apresentados na Bienal passada.
Como se vê, não sou nenhum brucutu poético defendendo o soneto, nem tenho o hábito de soltar marimbondos de fogo pela boca.
Mas não posso ficar quieto quando um discurso literalmente unilateral tenta invadir uma área, vital pra mim.
Hoje, sei. “Vanguarda” é coisa que pode estar em toda parte. Augusto a descobre em Lupicínio Rodrigues. Haroldo em Li-Tai-Po. Itamar Assumpção em Adoniram Barbosa.
O futuro, Menezes, é muito pobre.
Ele vive às custas do passado.
E acho mesmo que a própria idéia de “evolução” e “desenvolvimento”, aplicada à arte, representa uma apropriação indébita, extraída da área tecnológica, econômica e industrial, onde aí se pode, sim, falar em “desenvolvimento” e “evolução”.
Um Boeing voa mais alto, mais rápido e transporta mais passageiros que um teco-teco, com certeza. Adeus teco-teco!
No terreno da arte, porém, não há “evolução” desse tipo.
Um quadro de Matisse não é portador de mais informação do que uma tela de Rembrandt. O teatro de Brecht não é superior ao de Sófocles. Um filme de Godard não abole a existência do “Cidadão Kane”. Uma canção de Caetano ou uma ópera de Arrigo Barnabé não são, necessariamente, melhores que uma canção de Ismael Silva ou de Dolores Duran. Ou de Arnaut Daniel.
A arte não avança, indo “para a frente”, como as pernas quando caminham. Avança para todos os lados, como a pele num dia de muito frio ou muito calor.
A metáfora do “passo a frente” vem nos lembrar que a palavra “vanguarda” é uma expressão de origem militar, designando o corpo de elite que vai adiante, abrindo caminho para o grosso da tropa, que vem lá atrás. Com o conceito de “
produssumo”, Décio Pignatari liquidou com esse equívoco, há vários anos.
Parente próximo do tal “salto qualitativo” invocado no catálogo para qualificar a “Poesia Intersignos” da mostra. Essa expressão também é uma apropriação indébita, trazida, agora, da área da Biologia, da teoria da evolução de Darwin, uma teoria aristocrática, de inconfundível sabor britânico.
Quando a mim, acho que a vida é plena em todos os seus momentos. E não vejo em que um tigre represente alguma coisa melhor que um caracol. Nem sei o que é que a cascavel tem que o vírus da Aids não tenha também.
Mas a palavra é tirânica, é o instrumento das leis. Onde a palavra chega, já chega botando ordem. E dando ordens, não há organização sem comando, sem hierarquia, sem autoridade. Bem mais democráticas são a vida, as coisas e as obras de arte.
Toda teorização de vanguarda corre, sempre, um perigo, que eu chamaria de “tendência penal”. Nessas teorizações, em geral, réu do crime mais-que-perfeito de ser pretérito, o passado é condenado à morte e seus bens passam todos para seus legítimos herdeiros, as obras que um tribunal, uma corte suprema (qual?), decreta os únicos com direito a uma existência plena e atual.
“Novidade” não é o novo, disse o Augusto. E o novo não é tudo, digo eu com meus buttons.
O que interessa mesmo são as obras, a produção, o “poiein”, o fazer. Outras todas as estradas, todas as direções: outros sentidos.
Eu, se fosse você, Menezes, eu ia nessa mostra, curtia os poemas, e esquecia essas palavras todas.
O único modo de fazer as palavras perderem sua tendência nazi-fascista, essa mania de marchar em passo-de-ganso, é fazê-las cantar. Ou voar. O que, no fundo, é a mesma coisa.
Fonte: LEMINSKI, Paulo. Uma carta uma brasa através. Cartas a Régis Bonvicino (1976-1981), São Paulo, Iluminuras, 1992, p. 17 e 18.
Artigo inicialmente publicado na Folha de S. Paulo em 04 de dezembro de 1985.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica

Artigo do Walter Benjamin

Enchantagem

Leminski

de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

Quem ousa pode até errar. Quem não ousa já errou. (Leminski)

Boas vindas aos que quiserem ousar!
Um abratzo,
Claudionor